22 de junho de 2010

Fúria Lupina Brasil - Degustação 6


Nota: este é um capítulo de degustação do livro "Fúria Lupina - Brasil" (2010). Para ler outros capítulos, CLIQUE AQUI.


Um Diálogo Inquietante


Pantanal mato-grossense. É aqui que o garoto José Dante se sente em casa. Sempre que possível, ele foge para este refúgio sagrado, que fica a aproximadamente uma hora de caminhada da sua casa. Em meio aos charcos, florestas e campos, sente uma paz infinita. A explosão de vida que presencia aqui é indescritível, uma sensação inebriante de fazer parte de um ambiente tão rico, tão vasto, tão desafiador, onde se sente reconfortado, e não junto às pessoas com as quais é obrigado a conviver.
Quando está na cidade, sua vida é um tormento. Desprezado pelo pai, odiado pela madrasta, evitado pela avó e simplesmente ignorado pelas irmãs. Na escola, sempre que há uma chance, é humilhado pelos colegas, que caçoam de seu corpo franzino, suas orelhas grandes, suas sobrancelhas unidas. Costuma ser vítima dos piores tipos de brincadeiras de mau gosto.
Assim, aos dez anos de idade, Dante é uma criança arredia e introvertida. A única pessoa com a qual tem afinidade é a sua madrinha, que infelizmente se mudou para Cuiabá, após a morte de seu padrinho, por causa da malária.
Ao contrário do que pode parecer, ele não é uma pessoa triste. Aprendeu a se contentar com o que tem, e a única alegria que tem na vida é invejada por muitos: o convívio pleno com a natureza. Ele não tem medo de jacaré, cobra, insetos, tempestades, inundações, apenas os respeita. Neste exato momento, está passeando por uma mata densa, úmida, o verde preenchendo toda a sua visão, o solo argiloso cedendo levemente sob seus pés.
Ao notar uma movimentação na vegetação logo à frente, para sua marcha. Com o coração batendo forte, mais de excitação do que de temor, tenta adivinhar com qual bicho vai se deparar: cervo, capivara, cachorro-do-mato, tamanduá, quati, talvez até uma onça-pintada.
Mas, para seu assombro, é uma pequena mulher quem surge no seu campo de visão, com aproximadamente um metro e meio de altura, cabelos compridos de um vermelho vivo, bastante enrolados. Ela usa um vestido esfarrapado e apresenta um defeito nas pernas, que faz com que estas fiquem arqueadas, e dificultem seu caminhar. Dante arregala os olhos ao notar que os pés da mulherzinha sardenta são virados para trás, torcidos de uma forma estranha.
– E então, garoto-bicho de Poconé, porque tu te demoras tanto em vislumbrar a minha pessoa?
– Você me conhece? Por que me chamou de bicho? O que faz aqui no mato? – foi a frase mais longa que o garoto pronunciou nos últimos meses.
– Não surge um da tua espécie em meus domínios sem que eu tenha conhecimento. Chamo-te de bicho porque és da raça dos guará, e isso define muito o teu jeito solitário. Tu tens essa carinha de bobo, mas concentras grande poder dentro do teu corpo mirrado, esperando apenas a hora certa de se manifestar.
– Tá fazendo chacota de mim?
– Não sou disso! – exclamou a pequena mulher, de idade indefinida, em tom altivo – E ouve bem o que digo, pois poucos têm esse privilégio: em sete cemitérios, de sete cidades diferentes, acontecerão os fatos mais marcantes da tua vida, e percorrendo-os encontrarás teu destino.
– Não tô entendendo...
– Guarda minhas palavras, e elas farão sentido no momento oportuno! – ela começa a se embrenhar na mata novamente, e é uma voz distante e abafada que prossegue – Ninguém consegue me seguir, e mesmo tu não conseguirás. Nunca mais me verás, mas eu sempre acompanharei teus passos.
Naquela noite, o garoto não conseguiu dormir. Inquieto, mantinha na memória o encontro com uma pessoa que ele não sabe quem é, nem o que suas palavras queriam dizer. O que o incomoda é que ele sente que isso terá muita importância na sua vida.

4 de junho de 2010

Fúria Lupina Brasil - Degustação 5


Nota: este é um capítulo de degustação do livro "Fúria Lupina - Brasil" (2010). Para ler outros capítulos, CLIQUE AQUI.

Experiências Sádicas

Charlene está exausta, machucada, deprimida. Ela está dentro de uma jaula quadrada, de grades grossas, com um tamanho aproximado de três metros por dois. Dois lados da jaula estão obstruídos por paredes, pois ela está em um canto de um grande porão, que cheira a terra úmida, mofo e excrementos. Ela sente frio, e sua respiração é difícil, porque aqui é muito abafado.
Olhando através de um dos lados livres de sua jaula, consegue enxergar suas irmãs, Rachel e Sarah, em igual situação, cada uma delas em um canto. O que elas têm em comum: estão aprisionadas, feridas, em forma de lobo, e foram traídas pela mãe.
Subindo as escadas do porão, nos deparamos com dois caçadores sentados em cadeiras toscas e velhas, em uma grande cozinha com ar de abandono, que faz parte de uma propriedade rural alugada, no estado do Maine (EUA). Joe Vansing faz um brinde de bourbon com seu amigo Ted Guent, velho parceiro de caçadas no norte do país, que passou a ser seu braço direito na caça aos “cães do inferno”, como ele mesmo chama às espécies de lobisomens. Eles comemoram os dez anos desde a morte do garoto-lobo sob o machado de Joe, naquela estrada deserta do México.
– Ao número um! – brinda Vansing.
– E às dezenas de cães que já mandamos para o inferno nesses dez anos! – complementa Ted, entornando seu bourbon.
O que os dois têm em comum, além do corte de cabelo no estilo mullet e a idade bem próxima (já passam dos trinta), é o gosto por perseguir, atacar e matar lobisomens, se possível torturando-os antes de despachá-los para o além. Guent já tentou fazer faculdade de biologia e de veterinária, sempre desistindo, pois gostava mais de matar seres vivos do que estudá-los. Por causa disso, ele agradece aos céus todas as noites a oportunidade que o amigo lhe ofereceu, de poder exterminar uma praga do seu país, e ainda ser pago para isso.
– Um brinde também a Margareth, a mãe do ano! Se não fosse por ela, não teríamos evoluído tanto na nossa pesquisa sobre esses bichos, hein, Joe?
– Um brinde a essa querida fanática religiosa, que nos entregou suas filhas de mão beijada, por achar que elas são um castigo divino!
– Viva a maluca! Ha-ha-ha!
***
Charlene (agora com dezesseis anos) e as gêmeas Sarah e Rachel (ambas com catorze) sempre foram reprimidas pela mãe. Após a morte do pai, há dois anos, isso piorou mais ainda. Margareth se afundou no fanatismo religioso, e quando a filha mais velha apresentou os primeiros sinais de que seria uma menina-loba, a mãe a convenceu a não “cair nas tentações de Satanás”, porque o seu mal seria curado através da oração.
O mesmo aconteceu com as gêmeas, assim que completaram treze anos. Por causa de ir contra sua natureza lupina, as garotas definhavam, viviam sentindo dores horríveis pelo corpo e apresentavam um aspecto horrível, com profundas olheiras, a pele com um tom acinzentado, além de tremedeiras, vômitos e convulsões.
Cada vez mais, eram obrigadas a ler a bíblia e orar pela sua cura. Acabaram isoladas dentro de casa, longe dos olhares curiosos da vizinhança. Até que um dia o inevitável aconteceu: Charlene, por não conseguir mais refrear sua ânsia pela transformação, transmutou-se involuntariamente em plena luz do dia, dentro de sua casa. Incontrolada, ela rasgou o colchão de seu quarto, quebrou móveis e espalhou suas roupas pelo recinto.
Tudo isso durou apenas alguns minutos, pois ela estava tão fraca que logo desmaiou e voltou à forma humana. A mãe, sem pensar duas vezes, ligou para o número de telefone que o pastor havia lhe passado. Ela queria se livrar desse problema de qualquer jeito.
A dupla de caçadores já era conhecida nos meios sensacionalistas da imprensa estadunidense, sendo motivo de piada em todo o país. Mas eles não se importavam, pois quem tinha problema com lobisomens de verdade os contratava, e pagava muito bem pelo serviço. Parecia que as autoridades faziam de conta que não sabiam de sua atuação, visto que eles faziam um bem para a nação, segundo eles mesmos.
No caso das três irmãs, a dupla enxergou uma oportunidade de colocar em andamento algumas experiências que estavam engavetadas, por causa de nunca conseguirem capturar um espécime vivo. Assim, fizeram o serviço com desconto, solicitando também o aluguel de uma propriedade no estado em que Margareth vivia, que fosse isolada e espaçosa.
No dia combinado, eles viajaram ao Maine com os equipamentos necessários, se apresentaram na casa das meninas como funcionários de uma clínica de repouso e as levaram para o seu cativeiro, com o consentimento da mãe. Ao ver o furgão se afastando, um pensamento da mãe fechou essa macabra barganha: “Meu trabalho está feito. O pastor ficará muito feliz por eu ter livrado nossa comunidade do mal, que com certeza é uma penitência de meu falecido marido.”
***
– As pesquisas com as feras lá do porão renderam bem, não acha, parceiro? – Ted consultava seus apontamentos.
– Pode ter certeza disso! Com base nelas, já sabemos a dosagem certa de tranquilizante a aplicar, como funciona a cicatrização acelerada das criaturas, quanto aguentam de porrada, quanto tempo conseguem ficar sem comer... Além disso, percebemos que cada um tem características dos lobos de seu local de origem, ou seja, o comportamento dos lobisomens variam, dependendo de onde vêm.
– Sabe, às vezes eu fico com um pouco de pena... elas são apenas adolescentes.
– Pena? Você tem pena dos porcos quando vê uma dona toda embonecada com maquiagem? Ou se lembra dos ratos quando toma algum remédio? Tem dó dos malditos macacos, quando vê nossos heróis americanos desbravando o espaço?
– Claro que não! É que nesse caso...
– Aquelas coisas lá embaixo não são humanas, são animais! E os animais só servem para duas coisas: para nossa diversão e para servirem de cobaias no avanço da ciência!
– É isso aí, Hell, você tem razão. Nesta noite, faremos o teste final dos elementos, correto? Estou louco para sair deste buraco de rato no meio do nada e partir novamente para a ação.
– Sim, hoje concluiremos nosso sagrado aprendizado. Vamos comer alguns hambúrgueres e tomar umas geladas!
***
Charlene desistiu de lutar pela vida. Nas últimas semanas, foi mal alimentada, dormiu pouco, esteve sempre sob tensão, sem transmutar da forma de loba, enclausurada nesta jaula. Foi cortada, trespassada, queimada. Seu poder de cura, que deveria ser um dom maravilhoso, foi sua ruína, um prolongamento do seu tormento.
O pior não foi a indiferença e a maldade de seus dois algozes, que a feriam e estudavam friamente suas reações. O pior de tudo isso foi a indiferença de sua própria mãe. “Por que não nos aceitou como éramos? Porque não lutou por nós? Onde está o amor incondicional ao próximo, que tanto é pregado nas escrituras sagradas?”
Ela está deitada de costas no fundo da jaula, sentindo o cheiro da terra revirada e olhando para a lua, parcialmente encoberta por nuvens. Lua que parece uma bela pintura, emoldurada pelo quadrado de terra, formado pelas bordas da cova, no fundo da qual sua jaula repousa. “Que assim seja. Nada do que virá após a morte será pior do que esta vida.” Lá em cima, uma escavadeira começa a empurrar a terra para dentro da cova. Escuridão, peso, sufocamento. “Não sentirei saudades...”
E a morte vem, lenta, torturante, impiedosa.
***
Rachel se atira de encontro às grades. Está descontrolada, deixa toda a sua fúria fluir, pensamentos homicidas tumultuam sua mente. Ela quer se vingar daqueles dois, descontar tudo o que fizeram a ela e às suas irmãs, esmagar, dilacerar, cortar e fazê-los sofrer. Um nome flutua no mar de ódio que entorpece a mulher-lobo: Margareth.
Mais um salto insano, e a jaula cai de lado. Ela arranha o chão e as grades com um ímpeto tão violento que algumas garras são arrancadas. Nenhuma dor é sentida. Um traço de pânico toma conta de seu ser, quando o cheiro de querosene invade suas narinas.
O combustível derramado sobre a criatura irrita seus olhos e seus ferimentos. Ela sabe o que vem em seguida, e tudo o que consegue fazer é urrar e se debater em meio às grades. Um fósforo é riscado de maneira displicente e seu trajeto no ar forma um arco, que termina em uma pequena explosão, seguida de uma bola de fogo que urra e esperneia de maneira sobrenatural.
Calor infernal, agonia indescritível. A pele grossa suporta as chamas por mais tempo do que deveria, aumentando o sofrimento. A loba começa a sufocar, por conta das chamas que engole na respiração. Por fim, a desidratação e a falência múltipla dos órgãos internos. Rachel leva doze longos minutos até encontrar o abraço reconfortante da morte.
***
Torpor, fraqueza nos músculos e enjoo. “Mamãe, hoje não quero ir para a escola.” Sarah acha que está no quarto de sua casa, mas na verdade está deitada de bruços, nua em sua forma humana, salivando sem parar.
Por ter sido a principal cobaia das doses de tranquilizante, os últimos dias foram nebulosos e surreais, ela não sabe o que foi pesadelo, delírio ou realidade, em meio a todos os abusos que sofreu. Sua jaula foi içada sobre um pequeno lago, no fundo da velha propriedade alugada para os caçadores.
As polias do suporte que sustenta a jaula começam a ranger, quando um cabo de aço desliza vagarosamente, guiando Sarah para o fundo do lago. O contato com a água gelada é desagradável para a moça, e em débeis movimentos ela tenta em vão alcançar as cobertas imaginárias de sua cama inexistente.
A respiração fraca vai aos poucos enchendo seus pulmões com água. Antes de deixar escapar seu último suspiro, um pensamento invade sua mente: “Por que será que mamãe nunca nos ensinou a nadar? No próximo verão, pedirei isso a ela...”
***
Um dia depois de concluírem a “pesquisa”, Joe e Ted estão no aeroporto de Bangor, preparando-se para voltar para casa. Vansing vai a uma cabine telefônica e faz uma ligação para Washington.
– Alô, Johnny! É o Hell Vansing. Temos mais três Chaneys voltando para casa. Mantenha o protocolo “ninho de cobra” na gaveta. Câmbio, desligo.

30 de maio de 2010

Fúria Lupina Brasil - Degustação 4


Nota: este é um capítulo de degustação do livro "Fúria Lupina - Brasil" (2010). Para ler outros capítulos, CLIQUE AQUI.

A Reunião

Quem vê Caroline sentada no sofá da sala de estar, com a cabeça repousada no colo da mãe, assistindo o desenho animado “Bicudo o Lobisomem”, não desconfia que esta garotinha bonita e sorridente seja aquele bebê que, há uma década, nascia neste mesmo casarão de fazenda, numa fria madrugada coroada por uivos e celebrações.
Ela tem pleno conhecimento de sua condição, e espera ansiosamente o momento de sua primeira transformação. Segundo Rui, seu pai, isso só será possível quando a fisiologia lupina fizer parte de seu frágil corpo humano.
No ano passado, em seu aniversário de nove anos, Caroline perguntou ao pai quando ela saberia que seu corpo estaria pronto para a metamorfose que ela tanto deseja. Também falou sobre seu grande temor, o de simplesmente não ser capaz de se tornar uma mulher-lobo. “Você será capaz, posso afirmar”, disse ele, “pois foi sangue de lobo que provei ao te segurar entre minhas mãos, nos seus primeiros instantes neste mundo.”
Isso a acalmou, pois seu pai é a pessoa em quem mais confia, e a que mais respeita. Ela apenas ficou intrigada com a resposta que veio em seguida, mais nebulosa do que gostaria: “Estará pronta quando um novo sentido sobrepujar todos os já existentes.”
Rui Lopo recebe, na varanda de sua casa, três amigos íntimos. A primeira a chegar foi a matriarca da família Pastrana, Júlia. Logo em seguida, André e Lucinda Veiga saúdam os presentes e se acomodam em cadeiras ao redor da mesa redonda, sobre a qual repousa uma jarra de suco de maracujá gelado, copos e uma carta.
O início de tarde está agradável e quente, e o suco é muito bem recebido por todos. Já a carta não é tão bem-vinda, e seu conteúdo é o motivo desta reunião. Trata-se de uma convocação, para uma conversa com Pernambuco Nogueira, conhecido político da cidade de Joanópolis, e com o delegado Adão Fuller, na delegacia da cidade.
As três famílias são formadas por homens-lobo, já bem instaladas em pontos isolados da cidade. Os Lopo e os Veiga são originários de Portugal, e os Pastrana do México. Quando, cada um a seu tempo, optaram por fincar raízes aqui, procuraram “domesticar” sua fúria ancestral, de maneira a não prejudicar a população local, convivendo pacificamente. Quando se transformam, sempre o fazem em áreas afastadas, em meio a matas densas e montes de difícil acesso.
Possuem criações de animais para aplacar sua fome, mantém plantações e inclusive têm alguns de seus membros trabalhando na cidade, no comércio e no turismo. Aprenderam a ser reservados, a respeitar o povo e a amar Joanópolis.
A carta, apesar da escrita rebuscada e da cordialidade das palavras, transparece discretamente certo tom de ameaça, algo do tipo “nós sabemos o que vocês são”. O receio de perder tudo o que têm conquistado há gerações alimenta a discussão do quarteto, definindo estratégias, formulando defesas e até levando em consideração a possibilidade de propor algum tipo de acordo. Eles querem a todo custo evitar um conflito, que levaria a um banho de sangue e, consequentemente, a um exílio das famílias.
Chegada a hora de partir para a reunião, entram no carro Rui e sua esposa Aline, acompanhados de Júlia, já cientes de como proceder. A estratégia adotada foi a da cautela, e até mesmo da negação, caso não tenham provas concretas de sua natureza. Da janela do carro, Rui chama seu filho Rômulo e pede para que cuide de sua irmã, porque seu irmão gêmeo, Remo, está fazendo compras na cidade.
O carro parte, e um temor silencioso flutua sobre o trio, durante todo o trajeto até a delegacia. Todos têm um forte sentimento de que algo intenso acontecerá a todos hoje, e não sabem dizer se essa sensação é boa ou ruim. Resta agora encarar a situação com toda a coragem com a qual foram agraciados, e arcar com as consequências dela advindas.
Chegando à delegacia, eles foram encaminhados a uma sala de reunião nos fundos. Os três acomodaram-se em cadeiras estofadas, em frente a Adão e Nogueira, ao redor de uma grande mesa oval. Ás costas do delegado, uma ampla janela com as persianas levantadas deixa a sala às vistas de um grande contingente de policiais que por ali circula, com ares de despreocupação, mas que sempre tem alguém vigiando o interior do recinto, para o caso de alguma emergência. Uma clara demonstração de poder, visando a intimidação dos três. Pernambuco Nogueira inicia a conversa:
– Senhor e senhoras, não é de hoje que pessoas da área rural de nossa cidade vêm relatando avistamentos de criaturas de natureza indefinida, ameaçadoras e vorazes. Eu gostaria de saber se podemos ter alguma ajuda por parte de vocês para esclarecer este mistério?
– O que o senhor insinua? – a voz de Rui é calma.
– Insinuo que, caso essas ameaças não se afastem da minha cidade, serei obrigado a usar minha rede de conhecidos do governo federal para convocar o exército brasileiro, e iniciar a temporada de caça ao lobisomem!
– Veja bem, com base em que o sen... – Júlia é interrompida pela abertura repentina da porta.
– Não finjam mais! Ouçam o batido do seu horrendo coração denunciador! – Caroline aponta na direção do político. – Você é um mentiroso, e usa seu poder para intimidar, satisfazer seus torpes desejos!
Dois policiais abordam a menina e iniciam sua retirada da sala, ao mesmo tempo que Rui, Aline e Júlia se levantam. Rômulo e Remo são mantidos do lado de fora por outros policiais. O delegado imediatamente ordena que larguem a criança e deixem a sala. Também pede para que todos sentem-se novamente. Tal atitude foi movida por dois motivos.
O primeiro é que nunca havia ouvido tão calorosa referência a Edgar Allan Poe, muito menos vinda de uma criança. Além disso, o delegado não nutre muita simpatia por Nogueira, que sempre que pode usa seu cargo de poder para prejudicar alguém. Ele mesmo acha um absurdo esta reunião, mas foi, como sempre, pressionado pelo político.
– Isto é um ultraje! – reclama Nogueira, em tom indignado.
– Ofensa maior são os seus desmandos e obscenidades! Aos meus ouvidos chega o tamborilar do coração de um mentiroso, e meu olfato reconhece em você um perfume bem familiar, escondido sob uma camada de medo e de luxúria! É cheiro de sexo, com um leve traço de Lancôme. – os olhos de Caroline estão vidrados, e sua voz de criança soa estridente no interior da sala fechada.
O espanto se reflete no rosto de cada um dos adultos presentes. É tudo muito surreal: a menina não tem esse tipo de atitude, não utiliza o vocabulário que escapa de seus lábios, e fala de coisas das quais com certeza não tem conhecimento nem experiência. Mas quem está mais chocado é Adão. Foi ele mesmo que presenteou sua esposa com o perfume francês, que pediu para a um amigo do Rio de Janeiro trazer, quando ele foi para Paris nas férias.
A mulher até se gaba de ser a única da cidade a ter um Lancôme, que não deixa ninguém usar, pois sabe que levará um bom tempo até ter acesso a outro do tipo. A vontade que tem agora é de sacar a arma e tirar essa história a limpo, arrancar essa confissão do imoral sentado ao seu lado, mas seu lado profissional fala mais alto.
– Vocês são uma ameaça! – vocifera o político, batendo na mesa e levantando-se, fazendo com que a cadeira bata na parede às suas costas. Os policiais do lado de fora colocam-se em prontidão, mas são acalmados por um gesto do delegado.
– Temos atuado como os cães de guarda desta cidade, e vocês sabem bem disso. – a voz da menina é mais calma, porém enfática. – Você sabe bem o que aconteceu com o estuprador que aterrorizou esta cidade há vinte anos atrás. Os crimes na área rural são praticamente inexistentes, e isso é devido à atuação de nosso povo. Livramos inclusive o seu filho de uma emboscada nos limites da cidade, arquitetada por vingança à sua pessoa.
– Não envolvam minha família niss...
– Cale a boca! – a mão forte do delegado força-o a sentar-se novamente, e Adão apressa-se em fechar as persianas da janela. – Senhor Rui, peço desculpas pelo mal-entendido. Saibam que todos têm o meu apoio a partir de hoje, sempre que precisarem podem me procurar. É uma honra tê-los por perto. Vocês estão liberados. Peço licença para que eu possa usar esta sala para uma conversa particular com o excelentíssimo senhor Pernambuco Nogueira.
Rui mentaliza o termo “desfazer vínculo” e conduz para a saída a criança desorientada e confusa. Ela se sente como se acabasse de despertar de um sonho maluco, sem sentido. Após se despedir de Rui e das mulheres, o delegado fecha a porta atrás de si, cruzando os braços e fitando o político de maneira rude.
Nogueira limpa o suor frio da testa, sentindo-se como uma grande águia, cujas asas acabam de ser destroçadas. Ele amaldiçoa o presidente Figueiredo, que promoveu a maldita abertura política, tirando o poder de seus amiguinhos da ditadura, que lhe ofereciam cobertura aos seus desmandos. A conversa será longa, e acabará com um casamento desfeito, um pequeno ditador destituído e um profissional sério liberto das algemas do coronelismo.
***
Na propriedade dos Lopo, Rui tem uma conversa séria em família. O patriarca senta-se à cabeceira, tendo à sua direita seus filhos Remo, Rômulo e seu irmão Miguel, que mora ali perto. À esquerda, sua esposa e a abatida e assustada Caroline. Sua voz é calma e firme.
– Já sabemos que Caroline forçou Remo, logo que este chegou, a levá-la à cidade, nem deixando-o descarregar as compras do caminhão. Rômulo não conseguiu acalmá-la, nem convencê-la a mudar de ideia.
– Ela parecia que tava possuída! Até ameaçou a gente! – exclama Rômulo.
– Tudo bem, não o estou culpando disso, apesar dela ter ficado sob sua responsabilidade. Carol, explique-se.
– Hoje eu acordei esquisita, com o corpo muito quente. Eu achei que tava com febre, por causa do sorvete que tomei ontem. – a voz de Caroline é apagada, pois ela sente-se repreendida. – Depois que o senhor saiu, eu senti um negócio esquisito no peito, o coração batia sem parar. Aí eu comecei a pensar num monte de coisa esquisita, e a única coisa que eu queria era ir atrás de vocês.
– Eu acabei cedendo, porque senão ela ia correndo até a cidade. A gente levando, pelo menos tem dois marmanjos de dezoito anos tomando conta, né?
– Eu sei, Remo, e vou dizer porque não vou deixar nenhum de vocês de castigo: Caroline finalmente chegou ao último estágio: ela estabeleceu contato mental com a alcateia! Foi tudo muito repentino e acima de tudo precoce, pois isso ocorre por volta dos treze anos de idade. Por causa disso, ela ficou descontrolada e despejou um turbilhão de pensamentos da alcateia naquela sala. Quando ouviu o coração do político batucando por causa das mentiras que falava, puxou até um fiapo de um conto de Poe, que ela nunca leu na vida, e que com certeza veio da mente de Miguel, que é fã do escritor.
– Foi isso mesmo! – sorri o tio da garota. – Foi o que me veio à mente no momento em que senti o que ela ouvia. Na verdade, tínhamos muitos argumentos a utilizar como contra-ataque, mas aguardávamos apenas o momento oportuno, se fosse necessário. Mas essa pequena sem-noção jogou tudo na cara do patife, sem dar tempo de ninguém respirar! – todos riem, com exceção de Caroline, vermelha de vergonha.
– Bem, agora todos sabemos o que deve ser feito, correto? – Aline está orgulhosa, e não esconde isso de ninguém. – Vamos providenciar os preparativos para o ritual de iniciação, que será celebrado amanhã à noite!

24 de maio de 2010

FUN HOUSE XTREME N° 16: Especial Lobisomens

Acaba de sair o décimo sexto número do fanzine eletrônico FUN HOUSE XTREME, edição totalmente dedicada aos lobisomens.

O e-zine, capitaneado pelo IAM Godoy, tem participação de André Bozzetto Jr., Alfer Medeiros, Renato Rosatti, Adriano Miranda, M. D. Amado, Julio THCesar e dos sites Santuário dos Lobisomens (BR), The Werewolf’s Guide to Life (USA), The Werewolves.com (UK), Werewolf News (USA), além da equipe fixa do zine.

Links:

23 de maio de 2010

Bonecos de Lobisomem

Paul Nomad, do blog Idle Hands, fez um pequeno apanhado dos principais figures de lobisomem, das empresas McFarlane Toys, Yellow Submarine, Toybiz, Mezco, Neca, Sideshow e Sota. Vale a pena dar uma conferida!

18 de maio de 2010

Fúria Lupina Brasil - Degustação 3


Nota: este é um capítulo de degustação do livro "Fúria Lupina - Brasil" (2010). Para ler outros capítulos, CLIQUE AQUI.

Chegada Conturbada

No mesmo dia em que era celebrado em Joanópolis (São Paulo) o nascimento da menina-loba, na cidade de Poconé (Mato Grosso), a mais de mil e setecentos quilômetros de distância, uma morte era lamentada. É início de manhã, e o caixão com o corpo do padre João Landes é carregado por seis mãos amigas pelo cemitério São Francisco, rumo ao local do descanso eterno deste querido cidadão.
No triste cortejo fúnebre, onde muitos rostos infelizes despontam de cada canto, uma pessoa tenta a todo custo acalmar o profundo sofrimento que a domina neste momento. Trata-se de Maria do Rosário, prima do falecido, uma das pessoas mais chegadas a ele. Ela sempre ia às missas e o auxiliava nas atividades da paróquia, e o padre frequentava sua casa.
A notícia do ataque do coração fulminante que matou o primo, com trinta e oito anos de idade, foi recebida inicialmente com estupefação, seguida de uma depressão profunda. Isso não é nada saudável, visto que Maria está grávida, na vigésima-sétima semana de gestação.
Ela procura se acalmar, pois já não é tão jovem (tem quarenta e dois anos de idade), e sabe que sua gravidez é de risco. Este filho veio sem ser esperado, e seu marido Antônio não demonstrou a mínima satisfação quando soube desta gravidez. Maria percebeu de imediato que desde então ele se fechou, tornou-se amargo e esquivo. Achava que o problema do marido era a preocupação de mais uma vida sob sua responsabilidade, visto que o pedreiro, de poucas posses, já tinha seis filhas, tendo a mais nova (a única solteira) doze anos de idade. Mas a verdade, ignorada por ela, é mais cruel, e vai além de uma simples preocupação de quantas bocas alimentar.
Antônio, já há um bom tempo, desconfia de toda essa devoção por parte da mulher, e também não acredita na boa-vontade do padre. Para ele, um homem e uma mulher nunca podem firmar uma amizade sincera, sempre há sexo por trás disso. Mesmo havendo esse vínculo religioso. Mesmo sendo eles primos de primeiro grau.
Ele é homem vivido e desconfiado, sabe que o ser humano é traiçoeiro e aprendeu a não confiar em ninguém. Estava apenas esperando nascer a criança com a cara do padre, para resolver logo essa pendência de honra, fosse no braço, na faca ou na bala. E agora o homem da batina vai-se embora, sem dar-lhe a chance de lavar sua honra.
Acabrunhado, permanece meio que afastado do povo, andando numa alameda paralela à qual segue a grande procissão de admiradores do falecido e já saudoso padre Landes. Seu olhar se demora um pouco mais sobre sua esposa, mirrada, com aquela barriga de tamanho razoável, carregando o motivo do seu tormento. Ela nunca demonstrou sofrimento assim com ele, nem quando ele caiu de cama no último ano, quase morrendo. “Mas agora, só falta se jogar na cova junto com o caixão!", pensa ele desconsolado. “Podia cair mortinha com esse filhote do padre, que eu nem ia sentir falta!"
O que ocorreu em seguida pode nem ter ligação com esses pensamentos venenosos, mas Antônio se arrependeu até o final da sua vida por tê-los feito passar por sua cabeça. Maria do Rosário sente uma forte dor na nuca, e uma tontura repentina a ataca, fazendo com que caia pesadamente de joelhos, esparramando-se de lado pelo chão áspero. Um fio de sangue escorre por entre suas pernas, empapando o vestido e causando pânico nas pessoas presentes. Imediatamente, ela recebe socorro de alguns conhecidos, e é levada de carro às pressas para a maternidade mais próxima.
Para Antônio, tudo isso ocorre em câmera lenta, como se ele não estivesse ali presente. Quem permaneceu no cemitério, não sabia ao certo o que fazer: prosseguir com o enterro, seguir direto para o hospital, ou tentar tirar o marido e pai da criança do estado catatônico em que se encontrava.
Três horas depois, já recuperado do estado de choque em que estava, Antônio aguarda na sala de espera da maternidade. Depois de muito tempo afastado de qualquer tipo de fé, ele roga aos céus que sua mulher seja poupada. “Se tiver de escolher um, leve a criança! Eu prometo que deixo de lado toda essa questão de honra e de desconfiança." Quando o médico adentra a sala de espera e o chama de canto, o peso em seu coração denuncia que o homem de branco diante de si não é portador de boas notícias.
– Senhor Antônio, sua esposa entrou em trabalho de parto antes da hora, pois ainda estava no sétimo mês, em decorrência de um problema de pressão alta. Ela foi exposta a uma situação de muita tensão, e seu corpo sucumbiu.
– Doutor, eu quero saber apenas como ela está...
– Ela lutou bravamente nestas últimas horas, buscou energias que acredito que nem ela sabia que tinha. Uma mulher de muita fibra. Sofreu muito, mas agora seu sofrimento está acabado. Sinto dizer que sua esposa entrou em óbito há cerca de trinta minutos. Fizemos de tudo para reanimá-la, mas o esforço foi demais para ela. Foi uma verdadeira guerreira, que lutou com unhas e dentes para trazer essa criança ao mundo.
– Eu não quero saber de mais nada! – lágrimas escorrem pelo rosto sofrido e marcado por este duro golpe da vida.
– Calma, senhor Antônio, entenda que seu filho está vivo, porém com a saúde frágil, pois é um prematuro. Não pouparemos esforços para que essa criança consiga passar por esta provação.
– Que morra essa criança maldita, que tirou minha mulher de mim! – descontrolado, após gritar essa sentença impensada, ele deixa a maternidade, sem rumo.
Três de suas filhas também estavam na sala de espera e tomaram conhecimento do ocorrido, sendo a única reação delas abraçarem-se entre si, compartilhando esse momento de dor, buscando força uma na outra. Além do pesar, todas têm outra coisa em comum: a certeza de que não serão capazes de lidar com os procedimentos necessários. Será necessário pedir ajuda a Janaína, uma amiga da mãe, vinda de Campo Grande, que terá capacidade e sangue frio para tomar as rédeas da situação.
Uma mão diminuta e frágil segura o dedo indicador de Janaína. Mais uma vez, intensa emoção a invade, mesmo depois de passar mais de um mês ao lado deste pequeno leito de hospital, acompanhando diariamente a luta do pequeno José Dante pela vida. Segundo o médico, apenas vinte por cento dos bebês prematuros sobrevivem e, dada a ausência de alguns equipamentos nesta maternidade em particular, essa margem é consideravelmente diminuída. O profissional destacou dois fatores decisivos para essa sobrevivência: a presença dela, trazendo um ponto de apoio e afeto, e a imensa vontade de viver do bebê.
Ela deixa o quarto e dirige-se para a saída do hospital, pois está faminta e vai almoçar no restaurante de costume. Quase chegando ao estabelecimento, ela encontra dona Ana, a avó paterna do bebê, que aceita o convite de acompanhá-la na refeição. A conversa, obviamente, não poderia ter outro teor:
– É um milagre ele estar se desenvolvendo tão bem.
– Jana, eu sei que você é pessoa de confiança, além de muito compreensiva. Por causa disso, eu tenho esperança que você entenda o que vou te dizer...
– Por que está falando isso, quando o assunto é o seu neto, dona Ana?
– É por isso mesmo. Sou pessoa muito religiosa, e boa conhecedora das crendices populares. Você não notou nada de diferente na cara do menino?
– Que é pequena? É um pobre prematuro, coitado!
– Não, não. Preste atenção: ele tem as sobrancelhas unidas. – Janaína esboça um protesto, que é prontamente repelido por um forte aperto de mão de dona Ana. – Escute, porque eu só tenho coragem de dizer isto uma vez. Ele é o sétimo filho, numa casa onde só tinha filha mulher. Ronda essa desconfiança do finado Landes... imagina, mulher que se envolve com padre é uma coisa, e ainda primo! Era para esse menino ter morrido, nenhum doutor consegue explicar pela ciência como ele está vivo. É por causa disso tudo que eu digo: isso é coisa sobrenatural. Tenho certeza de que ele é um...
– Ah, faça-me o favor, dona Ana! Logo a senhora, professora aposentada, mulher culta, vai cair na besteira de acreditar numa bobagem dessas!
– É muita coincidência para não ser verdade! É lobisomem sim! Por isso que eu acho que deve ser a irmã mais velha a batizá-lo! Assim a gente quebra a maldição!
– De jeito nenhum! Eu e meu irmão firmamos compromisso com a mãe da criança, e vamos cumprir, nem que ele seja o próprio demônio encarnado! A senhora me dê licença, porque essa conversa estragou meu apetite!
A velha senhora olha a moça pagar a conta, sem se preocupar com o troco, e sair bufando porta afora. Enquanto termina sua refeição, pensa com toda a calma que é de seu costume: “ela é quem sabe. Minha certeza é que nunca darei muita confiança a essa cria de feitiçaria, que vai viver à custa do meu filho."